Além de Núncio Apostólico na Turquia, o arcebispo Ângelo Roncalli também tinha a santa incumbência de cuidar da comunidade católica grega, numa missão dupla que requeria diplomacia, credibilidade e uma fé operante. Em Atenas, a histórica capital da Grécia, sua posição era apenas ligeiramente menos difícil do que na Turquia. Embora o governo grego fosse oficialmente menos hostil, o Patriarca Damaskinos, representante maior da Igreja Ortodoxa Grega, via com maus olhos a atuação do Delegado Apostólico. E uma vez mais, enquanto tratava dos Assuntos do Senhor, o arcebispo Roncalli teve de caminhar com muito cuidado. Havia na época cinquenta mil católicos na Grécia, entre católicos romanos e bizantinos, espalhados por todo o continente e pelas lindas ilhas do Mar Egeu. O estado normal de vida dessa gente era de extrema pobreza e seus sacerdotes sofriam com eles. O arcebispo Roncalli começou a trabalhar vigorosamente para ajudá-los de todas as formas possíveis, principalmente nas ilhas, onde as pequenas comunidades isoladas de católicos podiam encher os olhos com a beleza da paisagem, mas não tinham nada com que encher o estômago. O Delegado Apostólico Ângelo Roncalli enfrentou na Grécia a inquietação política. Em 1936 o governo da Grécia foi derrubado, num golpe de Estado, pelo general Metaxas, que estabeleceu uma ditadura de direita, com o apoio total do rei Jorte II. Infelizmente o novo governo promulgou algumas leis anticatólicas extremamente rigorosas. Sob o pretexto de limitar o preselitismo, tornavam muito difícil publicar ou importar livros católicos na Grécia, e absolutamente impossível executar qualquer trabalho missionário. O arcebispo Roncalli entrou a trabalhar imediatamente para induzir o governo grego a relaxar essas leis. Usando de todo o seu gentil encanto, conseguiu tornar-se amigo do rei Jorge II, como fizera com o rei Bóris III da Bulgária, e também conquistou um considerável grau de confiança do general Metaxas. Seus esforços tiveram um êxito surpreendente. Não somente conseguiu que modificassem as leis, mas também obteve permissão para construir uma catedral católica, de estilo bizantino, em Atenas, capital da Grécia. 1939 foi uma ano de desespero para todos os povos. Para o arcebispo Roncalli, ele trouxe dor particular e pública. Em fevereiro o Papa Pio XI morreu, seu grande amigo. A 2 de março chegou a notícia da eleição de um novo Papa, o Cardeal Eugênio Pacelli, que tomou o nome de Pio XII. Pacelli fora Secretário Papal de Estado. Meses depois explodia a 2ª Guerra Mundial. Se algum mortal podia enfrentar o futuro e guiar os destinos do Vaticano em meio à tempestade que se aproximava, com habilidade técnica e fé inabalável, esse mortal era Eugênio Pacelli. Em agosto de 1939, o arcebispo Roncalli recebeu, tristemente, a notícia da morte de sua mãe em Sotto il Monte, na Itália. Nessa altura, a situação mundial era tão perigosa que o arcebispo não ousava abandonar o seu posto, mesmo para uma breve visita ao túmulo de sua mãe. Em 1º de setembro, a coisa que os cristãos temiam explodiu sobre o mundo. Hitler lançou as suas legiões motorizadas contra a Polônia, atravessando as longas planícies polonesas na "blitzkrieg", há tanto tempo planejada. As nações da Europa, uma após outra, foram caindo na guerra. O Papa Pio XII era um grande diplomata, mas tomou partido firmemente contra as desumanidades dos nazistas. Ousou denunciar, num discurso violento, as barbaridades cometidas por Hitler. O arcebispo Roncalli, cujo maior objetivo era a paz, também estava indignado com os nazistas. Durante a guerra a neutra Turquia escapou dos bombardeios, mas em 1941 a Grécia foi conquistada e escravizada por um inimigo cruel, com toda a carnificina decorrente disso. Toda uma nação valente estava literalmente morrendo de fome, com milhares de homens e mulheres jovens encerrados em enormes estacadas. O comércio e a indústria achavam-se paralisados deixando a população das cidades sem trabalho. O arcebispo não podia esperar conseguir muita coisa, entretanto, com fé, credibilidade e gigantesca diplomacia, aparando arestas entre os alemães, italianos, turcos e gregos, salvou centenas de milhares de vidas. Gregos, alemães ou italianos, logo que o ficaram conhecendo, compreendiam que ali estava um homem em quem podiam confiar, porque o arcebispo Roncalli amava todos os homens. Reginaldo Alves de Araújo |