MATO GROSSO DO SUL, terça-feira, 7 de setembro de 2010 - BOA NOITE!   
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» SUPLEMENTO CULTURA DE 30/1/2010
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Grandezas da literatura sul-mato-grossense

   História é mais que saudade com Paulo Coelho Machado

    Ah! A memória... Efeito e causa do nosso viver. Essência biológica (atos reflexos), mãe das ciências humanas. E o historiador, um mago que detém a poção remédio contra o esquecimento. Pelos caminhos da paciência vai esmiuçando o corriqueiro e o insólito; o grão que forma o gigante, detalhando a gota que faz o rio, compõe os oceanos da história. O livro “A Rua Velha”, de Paulo Coelho Machado, é um dos maiores momentos da literatura sul-mato-grossense.
    José Antônio Pereira encontrava um novo pó, a caravana mineira vinha no pós-guerra (Guerra do Paraguai, 1864-1870) para iniciar uma grande região. Era o ano de 1872 e, como observam os historiadores, repetia-se o fenômeno comum em todo o mundo, de reflorescimento das atividades todas, depois de um grande conflito bélico. Tal renascimento, aqui buscado pelos pioneiros, foi antecedido por demorada elaboração, como se depreende da palavra de Paulo Machado: “Os anos que seguiram até 1889 representam a noite da história campo-grandense. Não há, dentro desses quatorze anos – (desde 1875) –, fatos relevantes a anotar”.
    “No final de 1898, a população urbana andava perto de trezentas pessoas, todas praticamente morando na mesma Rua 26 de Agosto (...)”, escreve. A estrela do livro é a mãe de todas as outras ruas da cidade. Permaneceu muito tempo sem nome, pois “era a primeira e única do povoado”. Recebera de início o nome de Rua Velha e, depois, Afonso Pena. O nome atual refere-se à criação do Município de Campo Grande pela lei número 225, de 26 de agosto de 1899.
    Paulo Coelho Machado, escritor historiador, advogado e professor de Direito, nasceu em Campo Grande, onde foi vereador. Membro da Academia Sul-mato-grossense de Letras, em memória (faleceu em 26 de julho de 1999), ocupou a cadeira 21, hoje ocupada por Reginaldo Alves de Araújo, patrono Arlindo de Andrade Gomes. Foi secretário de Agricultura de Mato Grosso; presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul). Presidiu a Liga da Divisão do Estado. Escreveu “A Parceria Pecuária” (1972), “A Criminalidade em Mato Grosso”, “Processo e Julgamento de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1954), “Arlindo de Andrade, Primeiro Juiz de Direito de Campo Grande” (1988); e a série Pelas Ruas de Campo Grande — “A Rua Velha” (1990), “A Rua Barão” (1991), “A Rua Principal” (1991), “A Rua Alegre”, “A Grande Avenida”, 2000.
    Importando-lhe sempre os marcos iniciais, o registrador delicia-se em apontar jornalisticamente as primeiras coisas — o primeiro rancho, a primeira igreja, as primeiras fazendas, indústrias, lojas, autoridades, escolas, telefone, migrantes, a primeira crônica (de João Honório Vieira de Almeida a seu irmão Joaquim, seis de junho de 1899): “(...) A população deste districto, que é o 3.º de Miranda, é de 7 mil almas (!): é com efeito um campo grande: é uma povoação rica, muitos carros a trançam (...) Terrenos mais aprazíveis que meus olhos têm visto (...)”.
    Fatos e curiosidades são trazidos ao leitor, proporcionando o prazer do esclarecimento e a ilustração do saber com pitadas de bom humor, por exemplo, na descrição das origens dos nomes Prosa e Segredo para os córregos da cidade, ligados às fofocas no ambiente fraterno.
    Passo a passo com o desdobrar dos acontecimentos, o verbo de Paulo Machado anuncia os problemas e suas raízes, o primeiro deles, mais expressivos, sobre segurança, os demais e as primitivas formas de solução. Nenhum aspecto importante lhe escapa, todos os ramos são visitados. Mais atenção impõe ao contar os maiores acontecimentos, como o de conforto religioso da visita pastoral do bispo d. Carlos Luís D’Amour em 1886, os fatos da emancipação política e muitos outros.
    Agora é globalização, mas nessas eras iniciáticas a vida era mais detalhada, um tempo que passava num ritmo diferente, em especial no vagar. A limitação de recursos deixava a vida mais simples e intuitiva. Em saúde, exemplificando, o importante era purgar e fortalecer, e, por utilização, elementos primários. “(...) O povo era sadio e resistente. O viajante que chegava até aqui, vencendo os índios, as febres malignas, as sezões e as intempéries, suportando a longa e penosa caminhada, é porque em geral tinha o corpo forte, a mente sã e o ânimo intrépido (...)”.
    Em que pese enaltecer: “Recebemos constantemente legados de culturas anteriores e de culturas externas, que dão à cidade a feição moderna, progressista, dinâmica, criativa, de verdadeira metrópole (...)”, alerta que a cidade tem que preservar a sua personalidade. Critica a adoção de sotaques alheios, cita como “de muito mau gosto” usar o artigo e sua contração com a preposição ao indicar o nome de nosso Estado – o Mato Grosso do Sul, no Mato Grosso do Sul, ou ainda, do Mato Grosso do Sul, “quando sempre usamos Mato Grosso, em Mato Grosso, de Mato Grosso”.
    Cuida de reportar o cotidiano social das pessoas e famílias, das personagens ilustres, consubstanciando a narrativa da verdade. As tradições, as festas religiosas, então guardadas religiosamente. Lamenta as muitas destruições, no correr dos anos, de sinais históricos em vários lugares da cidade.
    — Ouça! Imortal Paulo Coelho Machado: visitando suas páginas, aprendendo sobre o primeiro tipo popular, o preto velho Mandu, anotado por volta de 1910, não pude deixar de construir comparação. O sonhador citado catava vidros e cristais pelas ruas e arredores de Campo Grande; para ele eram pedras preciosas e sofria pelo desprezo e deboche alheios para com o seu “tesouro”. Na visão das pessoas insensatas por indiferentes à história e à memória, o seu entesourar é inútil feito mania de Mandu. Para nós é o desejado da cultura que deve figurar ao lado do seu fulgurante nome sempre que estudarmos a nossa Capital e o nosso vigoroso Estado de Mato Grosso do Sul.

   Guimarães Rocha

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