Corumbá deslumbrante. Dorme na harmonia O teu sono infinito, nas rochas de granito, Sob a luz sombria, Do calor. (Lobivar Matos) (Aos policiais da Delegacia de Polícia Civil de Corumbá (MS) – com especial carinho ao Delegado Zalla) Traços biográficos – Filho de Manoel Augusto de Matos e Brasília Nunes de Matos, nasceu em Corumbá, Mato Grosso, a 12 de janeiro de 1915 (1947). Fez o curso secundário no Ginásio Municipal de Campo Grande, capital do Estado de Mato Grosso do Sul. Bacharel em Direito pela Faculdade Nacional da Universidade do Brasil, em 1941. Residia no Rio de Janeiro. Livros publicados: Areotorare - poemas bororos, 1935, Sarobá, 1936 – ambos publicados no Rio de Janeiro. E Renda de Interrogações – obra inédita que reúne 45 composições preservadas por membros da família Matos. Alguns documentos sobre a vida do autor revelam que sua infância, pela região pantaneira, fora digna de uma infância comum. Assim nos contam algumas linhas do artigo intitulado Lobivar de Matos - a ilusão e o destino do poeta desconhecido, escrito por José Octávio Guizzo (1979): (...) ele fora um menino de mais ver e ouvir do que falar. Garoto mirrado, ele seguia a turma, sempre meio arredio, pelas barrancas do Paraguai, em cismares sem fim. Pervagava por todos os bairros pobres da zona portuária, soltando papagaio, rodando pião e jogando bolita. Começou os estudos primários no colégio santa Tereza, na sua cidade natal, e em 1928, aos 13 anos de idade, viera com a mãe para Campo Grande. No entanto, o mesmo não pode ser confirmado em sua juventude, repleta de atitudes fortes e marcantes, principalmente, pelo que pode ser visto em sua composição poética. Dentre os inúmeros poemas, destacamos alguns versos de sua poética regional em Lavadeiras. Lavadeiras A manhã – lavadeira velha - esfregou o sol e o estendeu na terra para secar... As casinhas de madeira tortas beiçudas remendadas de lata circulando o morro, abrem os olhos, que são janelas quebradas e ficam olhando o rio que, sinuoso, passa, correndo, embaixo. Umas mulheres gordas carregando bacias de roupas na cabeça descem o morro e vão à beira do rio. São lavadeiras As mulheres heróicas, que trabalham para sustentar os filhos, aqueles meninos amarelos e barrigudos que ficaram em casa choramingando uma choraminga de fome. São as lavadeiras. As mulheres conformadas, que apanham dos maridos, dos maridos vagabundos, dos maridos jogadores, que bebem cachaça nos boliches e depois, em casa, espancam o filhos, descompõem as mulheres, em vez de trabalhar também. O texto poético, acima transcrito, tem seis estrofes e trinta versos, formando com estes, unidades rítmicas e melódicas. O número de versos agrupados em cada estrofe é variável, por exemplo: a) primeira estrofe – três versos (terceto); b) segunda estrofe – quatro versos (quadra); c) terceira estrofe – cinco versos (quintilha); d) quarta estrofe – três versos (terceto); e) sexta estrofe – nove versos (nona). Os versos não rimam entre si – são, portanto, versos brancos. Lobivar Matos, a voz que fala no poema, cria o seu ritmo livremente, como a natureza cria o vento, o sol e o rio. Por se tratar de arte realista, este poema obedece ao próprio espírito que pregava - vem inserido num contexto sócio-político, o qual é preciso ter em mente, ao menos em linhas gerais. Assim, partir da descrição de cenas, apresenta as características realistas de seus personagens: “Umas mulheres gordas”, “Aqueles meninos amarelos e barrigudos” e “Dos maridos vagabundos/ Dos maridos jogadores”. A personagem central do poema é a Lavadeira que lava a roupa encardida no pequeno ribeirão: “Umas mulheres gordas com seu filho/ Carregando bacias de roupas na cabeça/ Descem o morro e vão à beira do rio”. Lobivar é um anti-romântico confesso, o que significa ser adepto da estética realista. Por isso há uma espécie de destruição de sentimentalidade. Vejamos os versos em que o poeta descreve os filhos das lavadeiras, observados como um documento social e analisado sob o olhar científico: São lavadeiras As mulheres heróicas, Que trabalham para sustentar os filhos, Aqueles meninos amarelos e barrigudos Que ficaram em casa Choramingando uma choraminga de fome. E os maridos dessas mulheres heróicas estão condicionados ao ambiente, à herança e às circunstâncias, entendidos como leis universais. Mais ainda: eles podem ser colocados em pé de igualdade à natureza bruta da qual são peças de engrenagem. Enfim, uma característica naturalista. As mulheres conformadas, que apanham dos maridos, Dos maridos vagabundos, Dos maridos jogadores, Que bebem cachaça nos boliches E depois, em casa, espancam o filhos, Descompõem as mulheres, Em vez de trabalhar também. Concluindo, este desencanto lírico, nascido no meio de “casinhas de madeira/ tortas beiçudas/ remendadas de lata”, apresenta-se como uma arma de combate, de reforma e ação social. Enilda Mougenot Pires |