MATO GROSSO DO SUL, terça-feira, 7 de setembro de 2010 - BOA NOITE!   
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» SUPLEMENTO CULTURA DE 20/2/2010
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A MORTE DO AMOR

   
   Será que os grandes amores ficaram enterrados no mais remoto passado, entre pálidas páginas da literatura romântica mundial, sufocados pelo encantador perfume das camélias? Ou teria sido apenas uma miragem coletiva, invenção de sonhadores, lorotas de desavisados, brincadeira de poetas sem outro ofício senão o de cantar amores.
   Tem o amor raízes tão fortemente impregnadas na cultura mundial, que alimenta a própria história dos casais que se tornaram símbolos dessa invenção, ou tem apelos biológicos apenas que se revelam na complexidade dos sentimentos que se impregnam na psique humana?
   Que fardo complicado esse de falar de algo que parece ter existido sempre e que, mesmo capenga na atualidade, já deve ter passado por milhares de crises semelhantes a essa pelos séculos afora e, mesmo assim, resiste firmemente à idéia de ser descartado do rol das necessidades básicas da humanidade!
   Ora, essa chama que alimenta a mente do ser humano, e só a deixa plena se nela estiver presente, parece que está bem em baixa mesmo.
   Onde estão as imagens atuais dos amores marcantes, símbolos dessa criação, como Cleópatra e Júlio César, Romeu e Julieta e Margarida Gautier e Armando Duval, que referendam às criaturas mortais que amar vale a pena?
   Há uma clara ausência de exemplos e não só dos “Deuses do Olimpo”, como dentre as seres comuns.
   Pelo contrário, o troca-troca de pares não deixa que se fixem, no imaginário popular, casais emblemáticos detentores das bênçãos de Vênus, a deusa do amor e da beleza.
   Também, nos momentos nossos de cada dia, é matéria rara identificar casais que personificam o amor tão cantado em prosa e verso.
   De tão idealizado, o amor parece que partiu para o plano dos deuses e ficou lá escondido em um cofre, guardado a sete chaves. Poucos lhe têm acesso. Ou, de fato, confirmando a tese de miragem coletiva, a humanidade está se despertando gradativamente desse torpor?
   Talvez as guerras e a violência exacerbada que grassam pelo mundo afora e invadem as casas pela mídia, o destempero financeiro, a instabilidade econômica, moral e afetiva venham contribuindo com a perda da capacidade das pessoas de amar e de gerar, para o mundo, ícones do amor, num tempo tão sem motivação para tal. Ou, por outro lado, será que a reserva do amor, acumulada pela humanidade no decorrer dos milênios, acabou, ou nunca deveras existiu?
   Desculpas, justificativas já reprisadas, cansadas só servem para ilustrar este tema que, na verdade, anda tão descolorido.
   De um modo geral, o amor não é o produto de consumo mais indispensável como já o foi durante milênios. Hoje, assumidamente, milhares de pessoas, e até entre os mais jovens da nova geração, já admitem que a humanidade está caminhando para a independência do chamado amor ou para um outro tipo de relação com este sentimento que já deu à humanidade tão belos momentos e terríveis conflitos.
   Apesar de ainda ser um apelo muito usado na mídia, o amor começa a sofrer sinais de esgotamento, na prática, onde se vê que ele não é mais o unânime objeto de desejo da maioria das vidas.
   Conquistar segurança financeira, paz de espírito e viver bem com o próximo são os objetivos que mais vêm estimulando a batalha das pessoas, e parece que está sendo possível ser feliz, não dispensando a possibilidade de ter alguém ou até de amar, porém dando a essa questão o mesmo peso e a mesma medida dos outros indicadores do bem-viver. Definitivamente, os grandes arroubos, as desenfreadas paixões e similares vêm dando lugar a sentimentos mais centrados, onde razão e emoção convivem em especial harmonia.
   Tomara que o amor, tão bem sintetizado por tantos nomes e histórias no caminhar da humanidade, não esteja se despedindo tão melancolicamente do cenário contemporâneo. Ou será apenas uma miragem minha?

   Américo Calheiros

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