MATO GROSSO DO SUL, sexta-feira, 10 de setembro de 2010 - BOA MADRUGADA!   
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» SUPLEMENTO CULTURA DE 6/3/2010
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O CORCUNDA

   
    Num cair da tarde, de calor intenso, de brisa inexistente, corri para um banho refrescante no Paraíba. Na entradinha do barranco uma pequena casa, frontal ao poente, abrigava uma desnutrida família. Uma senhora amamentava uma criança na soleira da porta, um garoto brincava nu sentado ao sol, os lábios entreabertos, bebia a luz última do dia. Desci a ribanceira já me despindo e, só de sunga, arrojei-me na gostosíssima correnteza do rio. Bradei aos quatro cantos do areão infindo como se fosse um melodioso hino. Tudo no rio respirava alegria, concórdia e paz. Comovido eu imaginava que a quietude da bondade e do amor, ambos inesgotáveis de verdades eternas, pairavam ali tranquilamente. Eu estava no meio de um rio que refletia o céu e fertilizava os campos da região. De mergulho em mergulho contemplei o sol descer no ocaso como uma hóstia vermelha que tingia de púrpura as nuvens do céu e o cimo dos montes com seu sangue glorioso.
    Joguei o olhar para o barranco mais alto da margem direita, ali uma frondosa gameleira se elevava garbosa estendendo seus galhos até longe. Os habitantes de Itabaiana adoravam-na. Notei, para minha surpresa, um punhado de pessoas estranhas, de trajes diferentes, de gestos de outras terras, movimentando-se debaixo da Árvore.
    - Chegaram os ciganos - alguém gritou no meio do barranco. Quando saí do rio, parei na Praça Epitácio Pessoa. Raelzinho, um dos rapazes mais informados da cidade, no meio de amigos, comentava nervosamente que os ciganos são um povo errante, miserável, de procedência indiana, que desde tempos remotos se distribuiu por todo o mundo, falando dialeto estranho, corrompido, ocupando-se em enganar na compra e venda de objetos e animais, sem contar com a cobrança pela leitura das mãos dos ingênuos. A cidade ficou atenta aos movimentos dos visitantes.
    O prefeito alojou os ciganos às margens do Riacho das Pedras, perto de um cacimbão, encostado à rua do Carretel, lá armaram suas tendas.
    Nesse mesmo dia, inexplicavelmente, apareceu vagando nas ruas da cidade um corcunda de aspecto tenebroso, uma criatura monstruosa, de cabelo aparado raso, rosto de barba rala de uma palidez doentia, beiço inferior saliente. Os seus braços oscilavam desmedidamente como se ele houvesse perdido todo o domínio sobre esses membros. Caminhando, atirava os pés para fora com um lento movimento de rotação diminuindo, assim, o equilíbrio. Quase anão, tinha qualquer coisa de tão repulsivo que a gente era levado instintivamente a desviar o rosto quando o encontrava, para não humilhá-lo com um olhar fixo. Mas seus olhos eram admiravelmente belos. Como se quisesse compensar todas aquelas deformidades, a natureza dera ao corcunda os olhos mais meigos que eu houvera visto num rosto humano. Tinha um negror profundo e luminoso, extremamente inteligentes, cheios de uma tristeza inexprimível, como os olhos de um cão que parece sofrer por não poder falar à gente.
    Infelizmente muita gente o evitava, outros, porém, atiravam-lhe pedras e o insultavam. Um dia o segui à distância e descobri que ele dormia sobre um saco de palha, debaixo de uma lona sustentada por quatro estacas, em trapos, atrás do acampamento dos ciganos. Condoído, após o término da feira, recolhi, sem ninguém notar, restos de tripa, bucho, fígado e mocotó da banca de meu pai e, às pressas, depositei nos braços disformes do corcunda. Ele não sabia expressar uma extremada alegria, mas enlevado, olhou-me com uma ternura inigualável.
    Com o tempo o seu andar foi-se tornando mais lento e mais doloroso de se ver. Queixava-se por vezes de fadiga. Dias depois os ciganos deixaram a cidade para alívio de todos. O padre visitou o corcunda na beira do riacho, curou suas feridas, alimentou-o e rezou pela sua sofrida alma. Na noite seguinte o corcunda inventou de dar um passeio, já que a lua brilhava intensamente. Um bêbado aproximou-se e deu-lhe um encontrão. Ele caiu ao solo e não pode levantar-se. Outros chegaram e formaram roda dançando em volta dele, que se arrastava sobre as mãos e os joelhos. Foi machucado e torturado. O padre foi avisado e o levou para a igreja, no finzinho da madrugada faleceu.
    Era um sábado quando o corcunda foi enterrado. Na missa domingueira, igreja apinhada de fiéis, o padre subiu ao púlpito e ficou um momento imóvel, com a sua casula bordada e a estola negra, contemplando fixamente a congregação e, voltando a cabeça para um lado e outro, pôs-se como se quisesse tomar nota de todos os homens e mulheres presentes. Então disse:
    - Cristãos! Quando o Senhor da vida e da morte me perguntar, no Dia do Juízo: Padre João, onde estão as tuas ovelhas? Eu não lhe responderei. E quando o Senhor me perguntar novamente: Padre João, onde estão as tuas ovelhas? Guardarei silêncio. Mas quando o Senhor me perguntar pela terceira vez: Padre João, onde estão as tuas ovelhas? Deixarei pender a cabeça de vergonha e direi: Não eram ovelhas, Senhor: eram um bando de lobos...
    Aquele foi o domingo mais triste em toda a região do Agreste paraibano, na década de 50.

   Reginaldo Alves de Araújo

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