MATO GROSSO DO SUL, terça-feira, 7 de setembro de 2010 - BOA NOITE!   
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» SUPLEMENTO CULTURA DE 12/6/2010
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CASTRO ALVES ESTÁ FELIZ

   
   Transcorrendo agora, na África, os tão esperados jogos da Copa do Mundo, em que o Brasil é sempre visto como um adversário respeitável, ocasião não há mais oportuna para lembrar a figura de um dos maiores poetas de nossa terra: ANTONIO FREDERICO CASTRO ALVES, nascido na Bahia em 1847 e falecido, na flor da idade, em 1871, com apenas 24 anos, tendo legado à Literatura nacional obras de incontestável valor, elogiadas e estudadas por Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José Veríssimo, Ronald de Carvalho. Deixando a Bahia, em 1868, rumo para o Rio de Janeiro, em companhia de Fagundes Varela, outro grande poeta e da atriz portuguesa Eugênia Câmara. No Rio, conheceu Machado de Assis e José de Alencar. A obra de Castro Alves foi estudada por grandes ensaístas e críticos literários brasileiros, como, além dos já citados acima, Múcio Teixeira, Agripino Grieco, Otto Maria Carpeaux e Jamil Almnsur Haddad. Foi comparado ao grande Victor Hugo.
   O que ficou de relevante e grandiosa na obra de Castro Alves, além de seus poemas líricos, românticos, foi indiscutivelmente o que produziu motivado pelo sofrimento dos escravos, sentimento de que nasceram verdadeiras obras primas como “O Navio Negreiro” e “Vozes d’Africa”.
   O notável escritor Joaquim Nabuco assim disse, a respeito; “A idéia abolicionista foi a alma de seu melhor poema...” E ainda: “Ele cantou os escravos em um poema especial e em poemas soltos; disse a grande dor africana em estrofes de uma alta inspiração...”.
   Inspirado pela desdita dos escravos africanos, Castro Alves nos legou admiráveis versos, como estes:

   â€œSenhor Deus dos desgraçados!
   Dizei-me vós, Senhor Deus!
   Se é locura... se é verdade
   Tanto horror perante os céus...
   Ã“ mar! Por que não apagas
   Com a esponja de tuas vagas
   De teu manto este borrão?...
   Astros ! Noite! Tempestades!
   Rolai das imensidades!
   Varrei os mares, tufão!...”

   E, ainda, dentre outros tão bem tecidos, os versos seguintes, que não têm nada de pecado ao Pai Celestial, mas um recurso poético, usado até mesmo pelo atual Papa, quando visitou o campo de extermínio de judeus, há poucos:

   â€œDeus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
   Em que mundo, em que estrela tu te escondes
   Embuçado nos céus?
   Há dois mil anos te mandei meu grito,
   Que embalde desde então corre o infinito...
   Onde estás, Senhor Deus?...”

   Podemos, nestes tempos, responder ao glorioso vate baiano: não é mais necessário lançar mão dessa inocente imprecação, que, por um misterioso paradoxo, parece elevar ainda mais a nossa fé e confiança no Criador, ao invés de reduzi-la. Com efeito, a África cresceu, ao longo dos tempos. A realização da Copa do Mundo em seu território tem contribuído para a divulgação de seu progresso, do dinamismo de seu povo, de sua cultura, bastando lembrar que o Senegal, na costa ocidental da África, já possui um Prêmio Nobel de Literatura, conquistado pelo escritor Leopoldo Senghor. E nós? Não temos nenhum. Que faz o governo, que não divulga nossas letras, num país que tem notáveis nomes? Que fazem nossos dirigentes nessa área? Nenhuma exposição do livro brasileiro, na Europa e em outras áreas do mundo. Juízo, minha gente! Patriotismo, também!
   Hoje, a África tem belas e grandes cidades, um povo dinâmico e ordeiro, livre da colonização estrangeira e da discriminação racial, este câncer. Julgar um homem pela cor? Será que os romanos eram mais dignos que muitos de nossa era? Pois sim. Eles não faziam discriminação religiosa ou racial. Muitos de seus grandes homens, inclusive generais notáveis, eram africanos, muitas vezes salvando a pátria de invasões, sem que nenhum governo ou dirigente pecasse pelo racismo. Eram moralistas.
   Necessário se torna acentuar que um dos maiores poetas brasileiros é, sem dúvida, CRUZ E SOUZA, descendente de africanos, comparado a Dante, colocado ao lado dos maiores vates simbolistas do universo, como Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, Leopardi, e outros, muito lembrado e festejado em sua terra natal, Santa Catarina, sendo seu ilustre nome dado a um Palácio.
   Na Argentina, não é possível esquecer a literatura de fundo social, lembrando o nosso Castro Alves, na figura vigorosa do grande poeta Olegário Victor Andrade, autor de “El Nido de Condores”, dotado das elevações, imagens e grandezas de Victor Hugo. Nascido em 1839, faleceu em 1882, tendo vivido, portanto, mais que o nosso majestoso bardo baiano.
   Temos a plena certeza de que onde quer que esteja agora, na eternidade, pela vontade do Criador, nosso querido e inesquecível CASTRO ALVES está, sem dúvida, muito feliz, ao ver que hoje são outras as vozes d’Àfrica. E se aí “no assento etéreo”, como disse Camões, for permitido assistir aos jogos da Copa, que torça bastante em prol da vitória do Brasil.

   José do Couto Vieira Pontes

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