Tão forte tem o bico que pode, na bicada certeira, trincar o ferro. Possui outros nomes, tais como sabiá-pimenta, sabiá-de-campina, garganta-de-ferro, malha-bigorna e segue - campeiro. O trinca é uma ave saltadora. Não pára um único instante. O caboclo fronteiriço diz que o trinca tem formiga-carpinteira na bunda... Não se aquieta. Pousa aqui, pousa ali. Sacode as asas. Salta para outro galho. Voa para cima. Voa para baixo. Muda de árvore, num voo rápido. Chega às vezes rente ao solo, apanha um coró, um formigão, uma borboleta, uma pequena lagarta e, sem parar o corpo, inicia o repasto. Um comer de poucos segundos, num engasga-engasga tragicômico. Nem de papo cheio sossegava o pito. Dava início ao mesmo bailado, naquele esvoaçar de incrível rapidez, soltando um canto metálico, parando de repente, como que a ouvir o eco. Trinca-ferro é cantador, sim, razão pela qual tem os nomes de sabiá-pimenta, por ser ardido no cantar, e sabiá-de-campina, por gostar do campo, de moitas isoladas, de banhados e de charravascal que acompanha cursos d’água, ou estrada boiadeira, onde o açoita-cavalo, o fedegoso gigante, o alecrim e a murta preta tomaram conta. O trinca insôfrego gosta do homem. Acompanha o viajante, o carreteiro, o cristão sem destino certo, o menino tangedor de vaca de leite, horas e horas, incansavelmente, vivo, saltante, negaceador. Não é fantasia não. Nem coisa de lenda sertaneja. Enquanto houver galhos de pequenas árvores, ao longo da estrada de muitos destinos, o trinca desassossegado vai acompanhando o viajor, que se delicia com seu canto, seguidamente, de som onomatopaico. Carreteiro, viajor e vaqueiro gostam do trinca-ferro. Veem nele um companheiro atento, que nada exige, nem mesmo no pouso. Quando canta forte, martelando o bico, alegra os três. O canto, gritado, fica no ar, como uma saudação de amizade. São muitas as variedades de trinca, mas o nosso, sulino, o fronteiriço, de cor verde-cinza, é o que possui maior encanto, e graça também, porque canta bonito, sentado, agitando o corpo, sem parar, ou em voo baixo, retilíneo. Se vem a noite e, com ela, o pouso, o trinca se acomoda por ali perto, até sentir os primeiros clarões da madrugada. O trinca acorda os companheiros de viagem. Acorda com um trincado forte, duro, como ferreiro bigornando. . . Quando a jornada prossegue, lá vai ele, pousando de árvore em árvore, irrequieto, balançando o corpo todo, voando alto, voando baixo, catando bichinhos, para encher o papo. O viandante, orgulhoso, o acompanha e, com isso, sente que a viagem se torna menos cansativa. Na crendice da fronteira, carreta não atola nunca, nem boiada estoura, quando o trinca lhes faz companhia. Mas. . . O homem mau, sem entranhas, mata o trinca; mata-o para tirar o bico. No bico – afirmam – está o grande mistério, o amuleto milagroso que afasta malefícios, doenças, acidentes, proporcionando, somente ao detentor, sucesso, ganho no jogo, conquistas amorosas e riquezas. Não conseguiram, porém, liquidar a espécie. Ainda vemos o trinca-ferro, ao longo da fronteira, com a mesma graciosidade, seguindo os que, pela velha estrada, vão marchando em direção a paragens diferentes. O trinca é uma parcela do tradicionalismo. Tem cheiro de chão, de brejo, de várzea, de cerrado. É um pássaro crioulo. Viajor incansável. Amigo dócil do homem. Madrugador barulhento. Enfeitador de paisagem charrua. Não desaparecerá. Quando se extinguirem as árvores dos caminhos, ele surgirá nas moitas, saltitante, dominador, largando para os ares o seu trincado, o seu comovente canto crioulo. . . Hélio Serejo |