O sol de ouro a que nos leva o raciocínio de Hugo Pereira do Vale As origens, porquês, sentido e aplicações da vida, ocupam naturalmente as cogitações de qualquer, desde sempre ao despertar. O livro “Atrás das Muralhas da Razão”, de Hugo Pereira do Vale, lançado em 1973, é das obras que consideramos boas, úteis e necessárias, e a prova é a sua atualidade, posto que, se publicada nos dias de hoje, 35 anos depois, teria o mesmo sabor do novíssimo. O trabalho (190 páginas) é um ensaio com propriedades de filosofia, lógica e intuição em paisagem da interioridade timbrada pelos imperecíveis fundamentos morais de civilidade. E, inteligentemente, lega ao aprendiz mais perguntas do que respostas. Hugo Pereira do Vale (11/01/1918, Campo Grande/MS—20/01/1982, Campo Grande/MS), descendente de fundadores de Campo Grande, ocupou a cadeira nove da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, patrono Marechal Mascarenhas de Morais, depois ocupada pelo Frei Gregório de Protásio Alves, e vaga neste ano de 2010. Poeta escritor, jornalista cronista (filiado à Associação Brasileira de Imprensa), ensaísta, conferencista, biógrafo, médico e advogado. Membro da Academia Mato-Grossense de Letras. Seu extenso currículo inclui altas condecorações do Exército (foi combatente da Força Expedicionária Brasileira, primeiro tenente de Infantaria) e da Aeronáutica; dezenas de títulos honoríficos, intensa participação em atividades de medicina e de direito. Ele escreveu os livros “Atrás das Muralhas da Razão” (Campo Grande, 1973, ensaio filosófico sociológico metafísico prefaciado por Pietro Ubaldi e apresentando por Ivan Lins, da Academia Brasileira de Letras), “Areia do Deserto” (poesias de motivos árabes), “A Glória de Cem Anos” (conferência proferida no Centenário de Santos Dumont) e “Discurso de posse na Academia Mato-Grossense de Letras”. Deixou preparados os inéditos livros: “Sapo, lua e serenata” (poesia regional); “A floresta encantada” (poesia); “O amargor da solidão” (poesia); “Nas terras do longe” (história de Campo Grande); “O estranho” (ensaio) e “O homem sem rosto” (ensaio). “A eterna procura” é o provocativo título do primeiro capítulo do livro “Atrás das Muralhas da Razão”, ficando claro de imediato que, sendo um dos atributos do que vive, o constante movimento, o mover-se deve ser promovido conscientemente, buscando razão. E a meta é a Unidade da Grande Lei, a lei do universal Amor. Não caberá em parte alguma a estagnação. Ensina-nos o autor, que a suprema realidade é o absoluto e nós, os seres humanos, no estágio em que nos encontramos, mergulhados no campo da relatividade, somente pelo conhecimento e pela cultura, em experiências, poderemos, por evolução, alçar um dia aos patamares de consciência do Eterno. Das sínteses de Hugo Pereira do Vale, saberemos que o homem, impelido por natureza para frente e para cima, para o superior, terá que superar o imediatismo dos sentidos primários e permitir a abertura das intuições para acessar as grandes revelações que tanto almeja. “Não se tratando de loucos ou néscios, todos os homens de todos os continentes estão à procura de melhores dias. E cada qual conforme sua capacidade. Esta é a ordem natural das cousas”, escreve. Segue-nos, porém, os feitos e efeitos associados à nossa dupla personalidade: uma pertencente em íntimo ao absoluto; e outra, tecendo e sujeita a mentiras do mundo relativo. No caminho pesa a ignorância. O interesse e as ações egoísticos, os “inqualificáveis pensamentos” venenosos, a maledicência, são empecilhos retardativos à evolução. Hugo do Vale, falando do homem: “Se ideias torpes não lhe enchessem o pensamento, o cérebro livre da mesquinhez conceberia maravilhas para o aproveitamento coletivo”. Evolucionista, o escritor descreve o trabalho como o supremo imperador: “Aquele que não trabalha, definha e desaparece, ou como indivíduo ou como espécie”. Estremecidos ao imaginar a nossa bilionária galáxia, com o nosso sol se deslocando ao redor do seu centro, lemos em Hugo: “(...) o nosso sistema solar se desloca. Para onde? (...) há um trabalho eterno na ordem de todos os princípios. A própria Grande Lei, para tudo orientar e dirigir, é a solução da equação do trabalho. Nada existe sem ele”. Lendo as observações do poeta sobre o “Experimental”, penso na razão invertida que leva as pobres criaturas a idolatrarem o sensual, o “magro” e o materialista rico e poderoso. Prossegue: o homem do presente “está laborando aquém das muralhas da razão. Não lhe é permitido ir adiante pela falta de recursos que a todas as horas barram seus passos. Os principais fatores são a incultura e o senso da razão em grau diminuto de que está dotado”. “(...) quando algo de novo é descoberto, uma pergunta vem de imediato (...) como tal achado poderá ser útil à guerra (...)”. Avaliando o ser perdido em “nebulosas”: “Como batráquios, os homens, no início da escala moral do ser humano, se arrastam e se enodoam no sangue do crime e na lama da traição”; entretanto “A evolução da família humana é interminável e a cada passo um novo panorama de cores nos encanta a vida e conforta o coração”. Diante de nós, o pensador depõe o enunciado máximo de que “a vida vem do infinito do Universo, tendo sua origem no início do Todo. No Tempo do Começo, quando cada partícula se desprendeu do Todo, que é indivisível porque é infinito - a vida era a substância fundamental e a razão de tudo”. Eis que “A vida nos outros sistemas planetários é regida por princípios completamente fora dos conceitos biológicos, matemáticos, físicos e químicos por nós conhecidos”. A proposta de Hugo Pereira do Vale se resume em que “somos irmãos da Pátria Ideal – a Eternidade”, tendo o Amor Universal por verdadeira grandeza do gênero humano. Nisso, “reunidos em equipes de ciência, descobriremos a razão da nossa própria existência”. A atitude dos puros de coração deve ser observada. Mas – e o livro é uma advertência atualíssima – “Hoje, mais do que ontem, o homem parece preocupadíssimo em amealhar fortuna, não importa como; em alcançar alta posição de evidência, não importa o meio; em ocupar alto cargo nas cousas públicas, não importa a competência; e pretende ainda receber honrarias não importando se tem direito ou não”. Sendo a Humanidade um todo indivisível, e, cada ser, integrante absolutamente necessário a esse todo, “tudo que de mal fizermos ao nosso irmão, estamos fazendo a nós mesmos”. “Itinerante, um eterno viajor”, o homem jornadeia “em busca de si mesmo”. Neste mister Hugo aponta que a indiferença é um grande mal. “Quando a mente procura trabalhar, há um estranho processo pelo qual ela vai caminhando para frente com sensível desembaraço. E esta é uma verdade insofismável”. A fortuna da liberdade, o “único bem real”, só se conquista pelo Amor, propõe. Para ele, o método científico terá que aceitar a dedução intuitiva, se quiser alcançar. — Hugo Pereira do Vale! Diante da sua constatação acerca da “Muralha”: “Misturamos a areia movediça dos nossos crimes à cal dos brancos sepulcros das ambições e, com as pedras que atiramos em nossos semelhantes, levantamos a grande barreira da ignorância, pontilhada aqui e ali pelas torres do egoísmo”; ousamos pensar que, talvez, essa muralha seja exatamente esse algo a que erroneamente chamamos razão. Então, para vislumbrarmos o raciocínio puro de que deriva o verdadeiro ser, caberia à humanidade perder essa razão. Guimarães Rocha |